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“… 110, 120, 160. Só pra ver, até quando o motor aguenta…”*

11 de May de 2008 às 10:55 pm

Passo rapidamente a quinta marcha, volto a sentir o acelerador sob meu pé direito. O carro responde como esperado: 100… 120… 140 Km/h. O dia parece perfeito para o ensejo. Um verde ensolarado passa rapidamente pelos cantos dos meus olhos mas meu olhar está fixo na estrada. O carro pede mais e eu passo lentamente a sexta marcha. Minha mão vai ao câmbio e passo a marcha como alguém que coloca na colher o último pedaço da sobremesa. Meu coração dispara quando constato discretamente que cheguei aos 180 quilômetros horários.

Uma excitação pueril me invade, algo de meu lado criança, como quem está abrindo a caixa do tão esperado brinquedo novo. O carro ainda tem potência de sobra e eu estou disposto a fazer um bom uso dela. 190… 200 Km/h. Wow. “Mamãe, estou a 200 Km/h” – penso. 210 Km/h. Sinto o carro muito próximo ao solo e me sinto como que fundido à máquina, os amortecedores são minhas pernas, as rodas meus pés. Sinto toda a irregularidade da estrada e tenho a nítida sensação de que uma pedra qualquer pode me mandar diretamente para a Lua. O carro ainda não está no limite e quando decido pisar um pouquinho mais flashes da minha história com carros passam rapidamente em minha mente…

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Desde que me entendo por gente que gosto de carros. Desde criança vejo Fórmula 1. Na falta de carrinhos eu brincava de “corridas” usando o baralho sobre o sofá; cada carta era um carro. Meu pai sempre teve uma vida errante neste quesito. Quando eu ainda era bem pequeno meu pai teve um chevette que pegou fogo dentro da garagem de casa. Acho que tenho alguma vaga lembrança do chevette mas nada realmente concreto. Me pergunto se tudo isto me influenciou para decidir por engenharia mecânica quando era óbvio que eu deveria fazer elétrica (outra história).

Sempre passamos por períodos com carro e períodos sem carro. Um dia meu pai apareceu com um fusca verde. Tivemos este fusca por muitos, muitos anos. Até hoje não sei exatamente o rolo que meu pai fez para ter o fusca mas eu sabia que ele não tinha os documentos para poder vender o carro. Sem dúvida este foi o motivo de tantos anos com o fusca que, perto do final de sua vida útil, foi carinhosamente apelidado de abacatão, por motivos óbvios :)

Este fusca marcou toda uma etapa de minha vida. Era com ele que meu pai nos levou todas as manhãs à escola, dos meus 7 até 16 anos. Houveram caronas regulares como de Ramon ou Tom. Até chegar no inacreditável verde abacate, o fusca passou por muitas pinturas e vários tons de verde. O que mais gostei foi um verde metálico escuro.

O ritual era sempre o mesmo: pintura, pontos espassos de ferrugem, muita ferrugem, alguns concertos em marrom, o carro está mais marrom que verde e nova pintura.

Foi neste fusca que aprendi a dirigir. Nesta época “abacatão” tinha uma folga no volante de ao menos uns 30 graus. Você girava o volante e o carro continuava indo reto. Parecia uma cena de filmes antigos onde o cara dirige no estúdio girando o volante compulsivamente para direita e para a esquerda.

Abacatão não tinha mais o banco do carona e ao passar por qualquer buraco ambas as portas abriam automaticamente. Era um carro com personalidade forte. Ao abrirem as portas você tinha que tentar fechar enquanto mantinha o carro indo reto com todo cuidado com a folga do volante. Isto é uma escola e tanto para quem está aprendendo a dirigir. Não posso esquecer que o carro só ligava na segunda, na base do empurrão e, de vez em quando, exigia uso de algum conhecimento mais avançado de mecânica.

Para evitar a abertura das portas passávamos uma corda, destas de varal, entre as maçanetas internas de ambas portas. Uma vez, com as portas devidamente atadas, deixamos de dar carona a um conhecido pela vergonha de ter que desatar e voltar a atar as portas.

Mas a gente podia ir e vir e, numa cidade como Salvador, você só sabe a falta que um carro faz quando não tem um. Dos 15 aos 17 anos eu dirigia o fusca para percursos curtos, pelo prazer de dirigir. Para lugares distantes eu usava o transporte público como todo mundo apesar de que, de vez em quando, eu sofrer algum pequeno furto (mas isto é outra história). Quando fiz 18 anos meu maior objetivo era tirar diretamente a carteira de habilitação. Infelizmente o fusca tinha sido aposentado pouco antes e estávamos sem carro. Tirei a carteira assim mesmo mas fiquei um bom tempo sem dirigir.

Depois do fusca meu pai teve um chevette prata (este era apelidadeo chevelho). Foi o carro que eu e meu irmão mais curtimos. O que mais nos levou e onde mais dirigimos. Foi a época de nosso primeiro namoro e não era fácil dividir o carro mas o fato de sairmos muito juntos e das namoradas serem amigas facilitou bastante. Boa época esta, uma das que mais sinto saudades. Principalmente porque foi de certa forma a que mais estive mais próximo ao meu irmão. Saudades dos jogos de dominó :-)

Lembrei também do primeiro carro que comprei. Este, Guna foi o que mais conheceu. Um chevette prateado a àlcool que pertencia ao meu chefe no meu primeiro emprego. A empresa era a recém formada 4COM e eu trabalhava inicialmente na casa de um dos donos porque ainda não tínhamos um escritório. Quando montamos o escritório (uma salinha 2 x 3m que se assemelhava a um corredor) eu tive contato com os outros donos e acabei comprando o chevette 82 de Falcão (uma pessoa espetacular que vale muitas histórias por aqui).

Eu ganhava 500 reais bruto e comprei o carro por 1900 reais. Não houve seguradora que quisesse colocar seguro num carro tão velho – estávamos em 1996, eu tinha 20 anos e estava terminando a faculdade de informática.

A “felicidade” do carro próprio não durou muito. Passei rapidamente no aniversário de uma amiga em Itapuã e quando saimos (eu estava com minha primeira namorada, Andrea) eu não conseguia encontrar o carro. Ele tinha sido roubado, junto com os módulos pré-vestibular de minha namorada, uma placa de vídeo que Guna tinha me emprestado além de um milhão de bugingangas diversas minhas (até uma pedra – ops, ops, uma rocha – que eu tinha pego na estrada para meu irmão geólogo).

A parte cômica desta história aconteceu no outro dia. Como eu sempre passava para buscar Guna para ir ao trabalho, peguei emprestado o carro de meu pai (um corcel II tão velho quanto meu ex-chevette). Guna se surpreende do fato de eu estar com o carro de meu pai e pergunta o motivo. Eu respondo que tenho uma má e uma péssima notícia para ele. “O que foi?” – pergunta Guna e eu respondo “Rapaz, a má notícia foi que roubaram sua placa de vídeo. Sinto muito”. Guna pertunga como e respondo: “A péssima notícia é que levaram meu carro junto”. E demos boas risadas.

De aí em diante aumentei minha expectativa quanto a carros. Meu próximo carro seria um carro “segurável” :-)

A esta altura eu tinha subido bastante na 4COM, já ganhava mais que o dobro do que antes e resolvi mudar de emprego. Eu passei a ganhar menos no novo emprego e foi difícil explicar na 4COM. Eu adorava o pessoal lá e o clima da empresa e sabia que eles iam me valorizar mais e mais. Mas, na outra empresa – UNITECH – eu trabalharia com um sistema muito mais desafiante, iria aprender muito. E, verdade seja dita, aprendi realmente bastante embora ganhasse uma verdadeira miséria. Sai de 1200 reais na 4COM para 900 na UNITECH e segui por mais um par de anos isento no IR :)

Na UNITECH montei todo um sistema de controle de minhas finanças com 2 objetivos: 1-visitar meu irmao nos EUA e 2-comprar um carro que pudesse colocar no seguro. Alcancei os 2 quando comprei um corsa preto 1.4 (financiado, claro). Uma maravilha!

Só tinha um problema. O aperto foi tão grande que eu não tinha dinheiro para colocar gasolina e o carro ficou parado os primeiros dias no estacionamento. Eu pegava orgulhoso os 3 ônibus para ir ao trabalho pensando que isto agora ia durar muito pouco. Ele iria ficar parado por ao menos um mês não fosse pela ajuda de meu pai (que me ajudou indiretamente para não ferir meu orgulho) e de alguns amigos como Johnny.

Alguns anos depois, quando eu já ganhava bem o suficiente, comprei um Palio completo 16V com somente um ano de uso na mão de um amigo. Foi o melhor carro que tive. Vendi um ano depois de vir para Europa para o irmão do primeiro dono, o grande amigo Paulo Jorge. Isto depois de um acidente com o carro, que foi a cereja no fim de um relacionamento tempestuoso. Lógico que eu já não tinha mais seguro mas isto é outra história.

Uma irregularidade na pista me traz de volta à realidade…

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220 Km/h. Me pergunto como posso ir tão rápido e tudo passar tão lentamente. Agora compreendo os corredores de Fórmula 1. A velocidade é algo fantástico. Pisar um pouco mais ou terminar com o que agora começava a ser um martírio pela insegurança que passei a sentir?.

Inacreditável que, depois de tudo, estou aqui, em plena Alemanha, dirigindo um audi A6 alugado, entre Passau e Munich, batendo meus récordes pessoais de velocidade e, a esta altura, morto de medo.

Enquanto estou tomando a decisão de acelerar ou não um outro carro passa por mim como se eu estivesse a 80 por hora e ele voando baixo. Um Porsche negro. Sim, ele estava voando baixo. Desisto de acelerar mais. Me deparei com meus proprios limites. 220 Km/h por algum tempo e desaceleração.

Saio com uma nova idéia de futuro na cabeça: Alugar um Porshe!

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* Infinita Highway – Engenheiros do Hawai

"Ajayô, ajayô ô ô ô. Axé babá, axé babá á á á" (1)

27 de April de 2008 às 11:39 am

Em meados de 2000 fui pros EUA visitar Douglas. Estou andando por Manhattan, descendo a quinta avenida, atravesso uma rua e escuto alguém me chamando (aos gritos) pelo apelido de infância:

– Polho, Polho.

Nos segundos que meu cérebro demorou em registrar, aceitar e processar o que estava acontecendo eu escutava outra pessoa dizendo:

– Não é Polho
– É sim.

Me viro e vejo Christiano e Toy, dois amigos das antigas e que eu não via fazia alguns anos.

Batemos papo, eles estavam morando em NY, vivendo a vida, trabalhando e comendo à base de White Castel ( uma espécie de McDonalds super-hiper-mega barato onde você compra hamburguer à duzia, literalmente ).

Depois de muita risada e uma curta troca de experiências cada um segue o seu lado. Quando estou entrando no trem que me levaria a New Jersey notei que esqueci de pegar o telefone deles. A gente poderia sair alguma noite para tomar uma e papear mais.

Comento isto com Douglas que da muita risada da minha cara. Primeiro pelo fato inacreditável de eu encontrar amigos quando estou passeando por NY. Segundo por ser desligado o suficiente para não trocar telefones.

Termino respondendo a Douglas que acabarei encontrando Crhistiano e Toy “por ai”.

Três dias depois vou com Douglas à noite tomar uma de bar em bar no Village e adivinhem que eu encontro? Pois é, lá estão Chris e Toy caminhando pela mesma rua sem destino como eu e Douglas.

Meados de 2004, estou vivendo em Barcelona perto de defender meu mestrado e meu orientador decide que vamos a Salvador para uma especie de conferência-encontro onde meu orientador vai fazer uma apresentação e tentar vender a idéia de um doutorado conjunto entre alguma universidade de Salvador e a Universidade Autônoma de Barcelona (até hoje não entendo como pode ter faltado vontade política por parte do Brasil de colocar esta idéia em prática, imagine somente que os diplomas seriam duplos europeu e brasileiro – uma pena).

Estamos alí buscando o secretário da Fapesb quando reconheço a pessoa que está, de terno e gravata, ao lado do secretário. Era Christiano! Mais uma vez damos muita risada. Ele me explica que estava acessorando a Fapesb. Isto ajudou a gente a conversar com o governo. Conversei bastante com Chris neste dia, atualizamos a vida e ele disse que um dia destes viria me visitar em Barcelona.

Ano 2006. Estou me preparando para iniciar a escritura de minha tese. Recebo um email de Christiano convidando para ir a um show de sua banda em um bar de Barcelona. “Barcelona???” Penso eu. Convido um par de amigos espanhois, respondo seu email dizendo que vamos e “incluindo nosso nome na lista de entrada”. Prática esta bastante brasileira, importada por Christiano, e que evitou que pagássemos os 7 euros da entrada.

Christiano tinha saído da Fapesb e estava fazendo uma pós aqui em Barcelona. Na realidade ele estava tocando com sua banda e estudando nas horas vagas. Le pergunto de Toy e descubro que ele está morando na Austrália.

Christiano foi ficando, foi ficando e segue por aquí. Anteontem fui para mais um show da banda de Christiano, Iyexá. Gosto muito dos seus shows, música baiana bem selecionada e acabo sempre conhecendo alguns brasileiros mais.

Encontro entã0 com Toy que está agora morando em Barcelona e fazendo algum tipo de curso. Trabalha de VJ em uma discoteca e está iniciando hoje em alguma barraca de praia, trabalhando na cozinha – cozinha, Toy???? hummmm.

Pensando nas letras das músicas cheguei à conclusão que, assim como os americanos fazem sua catarze e escrevem sua história com filmes hollywoodianos; os cariocas sonham através de suas novelas exibindo os desejos de ser classe média alta com casas decoradas, roupas de marca e do Rio ser o umbigo do mundo. Nós, os baianos, cantamos nossa vida, nosso dia a dia, mas não o da classe alta e sim a do povo de verdade, com letras e músicas escritas por pessoas que fazem parte deste povo.

Se é verdade que “quem canta os males espanta” a Bahia é uma terra pura de todos os males.

Nas letras estão com igual status o Corredor da Vitória, a “negra do cabelo duro” e o bairro da Liberdade. Isto sem contar a “ladeira do Pelô”, Curusu, Amaralina, e até a Boca do Rio que é “beleza pura”. Bairros de classe alta e não tão alta assim.

Mas, para mim, o mais interessante é que a felicidade está presente em todas as castas e isto não deixa de ser verdade. “O nordestino é acima de tudo um forte” e, além de forte, é alegre apesar de toda adversidade. “Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia”.

É uma verdadeira pena ver que o “Haití é aqui” e doi presenciar o “paradoxo” entre riqueza e pobreza “escondido na areia”, um com visão romântica da sereia do mundo enquanto os “outros a desejar seu rabo para ceia”.

E ao olhar para política, ao conversar com a classe média e com a elite universtitária não dá para deixar de pensar: “Ôôô , ôô. Gente estúpida. Ôôô , ôô. Gente hipócrita.”

E “quando você for convidado pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado” verá onde foi o último Pelourinho, onde os escravos foram torturados. Constatará que ainda hoje “ninguém é cidadão”. “Como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”?

E nós cantamos nossas virtudes, nossos males, desejos e amores. Em música ritimada, nos batuques, nas letras, nas palafitas, nos barracos. Cantamos, dançamos e festejamos. Criamos uma democracia da música onde as classes se encontram. Mas estamos longe de romper os préconceitos. Longe de romper as amarras para encontrar o bem estar desta gente.

“Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter sonho sempre”. E “andar com fé eu vou”. Fé de que um dia isto tudo mude e possamos resolver nossos problemas de educação, segurança e pobreza.

Afinal “é claro que o sol vai voltar amanhã”(2) e na Bahia o sol volta sempre bem quente e muito forte.

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(1) Ajaiô – Luis Calda
(2) Acredito ser a única citação neste post de uma música que não foi composta por um baiano. Mais uma vez – Renato Russo