Archive for August, 2007

Você consegue ouvir estrelas?

31 de August de 2007 às 1:20 am

Ora (direis) ouvir estrelas!
(Olavo Bilac)

XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

E você, ainda é capaz de ouvir estrelas? Não as deixe calar!

Adeus, berimbau e saudades

29 de August de 2007 às 10:15 pm

Estou na sala de embarque do vôo TAP 156, partindo de Salvador com destino a Lisboa. As pessoas começam a entrar e a fila está longa. Muita gente, de muitos países diferentes. Afinal este vôo é um dos pontos de conexão de Salvador para toda Europa.

Na frente da fila vejo de relance os cabelos e os gestos de um senhor e me arrepio. Na minha cabeça se materializa a imagem de meu pai, entretanto a razão chega rapidamente me recordando da impossibilidade de que meu pai se encontre aqui neste momento. Acabei de me despedir dele faz uns 10 minutos.

Aeroportos… aeroportos… nunca pensei que estaria tão rodado neles, que teria embarcado e desembarcado tantas vezes, em tantos países e com esperanças, sonhos, perspectivas tão diferentes de uma vez para outra. Nunca pensei que choraria tanto das dores do amor nos aeroportos. Nunca imaginei sentir tanta saudade de mundos tão distintos.

Encontro-me bem, no “player” escuto uma música do Legião Urbana…

“… é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…”

Observo a gente na fila, entregando a passagem, pegando o canhoto e entrando no sentido do avião. Passa o menino francês e sua família. O “menino do berimbau”. Na fila do raio-X tinha uma família de franceses e um menino de uns 10 anos com uma mochila. Na mochila ele tinha uma miniatura de berimbau de uns 50 cm, uns 10 cm estavam expostos.

Ao chegar no raio-x a família foi avisada de que berimbaus não eram autorizados dentro do avião e que eles teriam que ir até o check-in e embarcar o instrumento. É lógico que se gerou uma tensão entre mãe e filho, mas o filho foi compreensivo e deu o berimbau para a responsável pelo raio-x. Fiquei um pouco triste pelo menino e um pouco chocado quando, rapidamente e sem cerimônia, a mulher se virou para uma caixa de lixo, a abriu e jogou o berimbau, assim, sem escrúpulos, sem pena, sem esperar a saída do menino,… jogou diretamente na lixeira. Estávamos todos da fila indignados, ouvi comentários muito discretos do acontecido em vários idiomas.

Meu primeiro pensamento foi que estamos ficando robotizados, estamos tendendo a ficar tão frios como o que dizemos de nossos amigos do primeiro mundo. Poucos sensíveis e olhando somente às normas absurdas, seguindo cegamente. Na Alemanha entrei no avião com um cortador de temperos com duas lâminas super afiadas. Lembro de ter sido barrado pelo operador mas o responsável olhou e me deixou passar dizendo que eu obviamente não era terrorista afinal meu cortador de tempero estava cuidadosamente enrolado para presente, com cartão e tudo.

Mas o bom senso prevaleceu também para o garoto francês. Um dos funcionários buscou o superintendente que conversou com o piloto do avião e o berimbau foi levado, para felicidade de todos, na cabine do piloto.

A cultura pode até moldar a intensidade de nossas ações, o quanto demonstramos o que sentimos, o que achamos mais ou menos natural, mas seguimos sendo todos humanos. Torcemos todos pelo menino do berimbau independente de onde nascemos e de onde nasceu o menino. Somos no geral contra a injustiça e, acima de tudo, contra fazer uma criatura inocente sofrer, assim, sem motivo.

Aqui sigo eu, no saguão de embarque, escrevendo. Minha hora de entrar no avião está chegando e sei que cada passo será um passo de saudade de mãos dadas com a excitação de estar indo rumo a algo novo.

Meus pais e todo carinho deste período junto com os desafios do novo emprego.
Lençóis e os momentos inesquecíveis; voltar a ter um ap para chamar de lar.
Os novos e velhos amigos do Brasil juntos com os velhos amigos que reencontrarei e os novos que farei.
Clarice Linspector e HP, ambos com seu novos significados.

É, a vida não para e espero que nunca pare de nos surpreender e desafiar.

Olho a fila, chegou a minha vez. Os dois últimos acabam de entrar. É hora de fechar o computador e seguir viagem …

Um SO dentro do browser?

14 de August de 2007 às 1:46 am

Uma frase que escutei na televisão ontem me chamou muito a atenção. A pessoa estava falando sobre robores e exercitando futurismo e disse que hoje já existe uma entidade criada pelo homem à qual não temos controle e que não podemos simplesmente desligar: a Internet.

Nunca tinha olhado para a Rede com este ângulo mas não deixa de fazer sentido. A verdade é que vivemos toda uma revolução em um espaço de tempo muito curo e esta revolução resolveu não parar mais. Não faz muito tempo e os aplicativos do famoso Office Pack (editor de textos, planilha de cálculos, …) foram disponibilizados para uso online, dentro do browser. São exemplos o Google Docs, Think Free e Zoho.com.

Há quem acredite que o império Microsoft está sendo abalado enquanto outros dizem que dentro em breve a poderosa empresa também vai disponibilizar online seu famoso pacote de escritório.

Mas nem só de office vive o homem. Os inovadores estão indo mais além e acabei de brincar com um sistema operacional online. Pois é, você abre o navegador, entra no site, loga no SO e tem todos os arquivos e configurações de seu usuário abertas lá. Pode fazer upload de arquivos, editar, … potencialmente instalar programas…

Tudo online e de qualquer lugar. Performance?? Ainda não é o melhor dos mundos mas temos que considerar que com os multicores a performance da ponta está crescendo muito.

Será que vinga? Por enquanto vale muito a pena dar uma brincada com o EyeOS.

Na imagem acima vemos o EyeOS com um navegador e o explorador de arquivos abertos.

Comentem aqui suas experiências…


Technorati : ,

Vale a pena refletir…

10 de August de 2007 às 7:24 pm

Estou vivendo na Europa já há 5 anos. Todas as vezes que venho ao Brasil sofro ao sair nas ruas das grandes cidades vendo os meninos de rua, guardadores de carro, crianças limpando pára-brisas. Fico com uma pergunta na cabeça que não quer calar:

Como pode um país tão rico ter gente morrendo de fome?

Foi um amigo espanhol que me perguntou isto quando estava comigo visitando a Bahia. O pior é que nunca consegui responder a esta pergunta sem passar pela vala comum de reclamar do governo.

Eu sou reticente sempre que o negócio é meter o pau no governo e nos políticos porque vejo os políticos como um reflexo da sociedade. Políticos corruptos só sobrevivem em sociedade onde a corrupção é aceitável.

Não suporto esta atitude de “cordeiro” que tem o brasileiro ante a coisas que são completamente fora do normal e inaceitáveis tipo violência, fome e corrupção.

Dêem uma olhada nestes textos. Vale a pena ler e refletir.

“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
(Maiakovski)
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“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.” (Bertold Brecht)

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“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…”
(Martin Niemöller, 1933 – símbolo da resistência aos nazistas)

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“Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho…
(Cláudio Humberto, em 9/2/2007)